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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ESCULTURAS DE GELO

Corpos frios e gelados é o que temos sido
Olhares frígidos sem expressão de afetos calorosos
Palavras de conveniência
Comentários inexpressivos
Morte em vida a dois
Uma espécie de contrato inquebrável
Nos parece impossível um adeus
Mesmo que a dor desse adeus seja menos danosa à que sentimos agora
Universo sem graça que criamos pra nós
O costume cristaliza corpos
Pára o mundo
Petrifica o tempo
Nos separar é como se nos quebrássemos em vários cacos
É morrer
Mata-se o que já está morto pra buscar vida
Reunir os cacos e buscar ressurgir
Reiventar-se buscando não o que se foi mas algo de novo
Entender que os cacos não precisam ser colocados nos mesmo lugares
Permitir buracos em busca de completude
Se dar novas formas
Se refazer
Se recriar

Num processo autopoiético

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-


sábado, 20 de dezembro de 2008

Devaneios Meus

Procuro palavras, mas elas não vêm. Não vem. Não vem. Pesco cada letra tentando encaixa-las num enredo certo, correto e preciso. Mas tudo tem parecido pequeno e não bastante enquadrável naquilo que quero expressar. Faltam palavras e argumentações. Tudo tem sido pouco e quase nada. Não quero ter que regular a voltagem das coisas ao que preciso. Quero que ou esteja pronto ou que eu possa reinventar uma nova voltagem para mim. O que não existe eu invente. Deixa eu ferver a 6000º. Quero expelir tudo do núcleo do meu ser. E virar se não lava de vulcão. Não. Não. Pra que estética? Pra que condensar sentimentos em palavras classificáveis esteriotipadas? Não me venha falar de modelos, regras e leis. Moral? Ah me poupe sobre esses subterfúgios de um mundinho reprimido e escroto que não consegue ser o que se quer e julga o outro. O que é a moral se não o espelho repressor de tudo aquilo que você queria ser e não tem coragem.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

SOBRE QUERERES

Não, eu não quero o certo, o correto, o previsto. Não, eu não quero a precisão do destino que protege, que abriga, que nos impede de experimentar. Não, eu não quero a mesma precisão do destino que condena, que pune, que fere. Se for pra me ferir e me machucar que seja por mim mesma. Quero sangrar até a ultima gota. Fazer exposição da minha carne viva. Quero chocar e estremecer. Mas que não seja dito que foi o meu destino e sim que foram minhas escolhas. Eu quero sentir vida em mim, sentir tudo estremecer e ferver. Quero ardência em cada parte do meu corpo e se for preciso me queimar, então que assim seja. Chega de sentar na janela do trem e ver a vida passar como se eu não tivesse nenhum tipo de controle sobre ela.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

sábado, 13 de dezembro de 2008

MULHER FERIDA

Pinga cada gota de sangue deixando rastros, passos e compassos. Ela que sangrava já nem sentia. Há dias a ferida aberta exposta, esperando talvez que alguém notasse. Ou não esperando nada apenas já não se sentia viva o bastante para cuidar dessa ferida. Devido ao seu estado de não-vida, já não podia sentir as fagulhas que dilasceravam seu corpo. Apenas estava sendo sem saber o que se era. Subindo os degraus da catedral parou diante do ultimo e entrou de joelhos. Dizia palavras e frases desconexas. Rogando por ajuda as preces eram sem nexo aos ouvintes de fora dela. Já não se lembrava das orações que havia aprendido quando criança então não ousou parafraseá-las, preferiu simplismente falar. Deixou que seu coração trouxesse as palavras do fundo de sua alma. Encharcada de lágrimas, sangue e desespero ficou ali a noite toda diante do pai, buscando lavar o resto sórdido de alma que ainda existia em si. Não buscava ajuda para um futuro, não buscava força para viver. Clamava apenas o perdão. No fim da madrugada, já amanhecendo ouvia-se os primeiros carros e ônibus nas ruas da metrópole. Levantou-se serena, a ferida já havia entrado no processo inflamatório, havia muito pus, estava bem inchada e ainda escorria sangue. Saiu da catedral e olhou a rua e os carros passando como flechas em sincronia. Poucas pessoas na rua, porém ninguém a olhava, era invisível a todos. Mesmo no seu estado de podridão, não tomava banho a dias o que fazia com que exalasse um odor desagradável. Ainda a olhar o movimento dos carros, foi andando calmamente em direção a rua e deixou que um deles a levasse em direção ao poste de um quarteirão depois da catedral. Era sua ultima tentativa de sentir a vida.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

NADA NÃO...

Eu só sei dizer
Quando nada quero dizer
Do nada tudo vem
E quando mais preciso dizer tudo
Me faltam palavras
O nada as rouba a hora que bem entende
Na verdade o nada vem do tudo
E o tudo não é nada
Ou será que é?
... Nada não deixa pra lá.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Afetos Fragmentados


"Sim, é claro
O universo é negro, sobretudo de noite.
Mas eu sou como toda a gente,
Não tenho eu dores de dentes nem calos, e as outras dores passam.
Com as outras dores fazem-se versos.
Com as que doem, irrita-se.
A constituição íntima da poesia
Ajuda muito...
(Como analgésico serve para as dores da alma, que são fracas...)"

(Álvaro de Campos)

sábado, 6 de dezembro de 2008

DESABAFO

Eu já cansei desses joguinhos de caça-palavras com suas charadas secretas que só você entende. Não quero méritos por acertos. Ganhar pontos como se estivesse numa competição. Cansei de ser a boazinha que passa a mão na tua cabeça e acata quando você se faz de desentendido e se diz vítima. Eu não sirvo pra certos jogos de sorte ou azar. Mostro minhas cartas de cara limpa. Não tenho medo de me mostrar. Foi-se o tempo que vivia cheia de disfarces e charminhos. Então me entenda bem meu bem, que eu não vou entrar nos seus jogos de novo. Se você quiser me convencer que tudo não passou de mais um estado alterado após sua embriaguez, fique sabendo que eu cansei. Cansei mesmo. Porque sou alguém que sempre te respeitou e não te pediu nada em troca a não ser isso. Eu tô ligando a porra do foda-se. Foda-se pra sua estupidez. Foda-se pra seus pedidos de desculpas depois. Foda-se se sou a mulher mais maravilhosa do mundo. Foda-se se eu te digo verdades e você converte a maneira que bem entende. Foda-se se quer continuar com essa merdinha de vida. Cansei de ficar me preocupando contigo e de poupar palavras duras. Eu simplismente estou farta do seu egocentrismo. Divirta-se com o seu umbigo.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

PRECE


Penso no espírito que transcende o nosso corpo físico, que é apenas matéria que vira pó de volta a terra que veio. Porque dar tanto valor ao externo passageiro se é nosso espírito que reinará após a carne apodrecer e ser comida por urubus? Eu creio no espírito. Eu creio no espírito como parte da matéria que aqui vos fala. Me toco e porque não, minha mão é meu espírito e até a unha de meu pé. E vivo para respeitar cada parte de meu corpo como se fosse meu próprio espírito, que na verdade o é. Quando tu me machucas é meu espírito que feres e deixa marcas. Muitas vezes socos em meu corpo não doem tanto quanto palavras que são atiradas feito flechas na alma. Percorrem-na rasgando e dilacerando o ultimo suspiro de vida em mim. Porque insistes em sulcar minha ultima gota de esperança? Eu deixo que tu vivas como queres. Deixe-me viver à minha maneira. Se não respeitas meu corpo, ao menos respeite minha alma. Não te peço nada além de libertar meu espírito do corpo que você prendeu. Eu preciso seguir.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

BURACOS

Há certos momentos que fico farta de companhia. Eu preciso estar só comigo mesma. As pessoas enjoam. Principalmente quando tudo se repete e elas sempre voltam com as mesmas carências cobrando de você carências que te faltam. Não entendem que a carência que nunca deu é a que nunca teve. Há momentos que minhas faltas me bastam e não dá pra destapar meus buracos para preencher os alheios.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

FERIDA ABERTA


Estanquei o sangue de cada ferida.
Cuidei e limpei de maneira que não inflamasse.
Mas ainda me é irresistível a idéia de arrancar a casquinha mais uma vez.


-=Þëqµëñä Þö놡zä=-


domingo, 30 de novembro de 2008

ALQUIMIA



Daquele tipo que te pega por trás e sem pedir licença te rouba sua essência e penetra em você. Ficam ali a brincar com suas línguas enrolando uma na outra. Ora eu em você. Ora você em mim. Ora nós dois em nós. Mordidas leves e brutais nos lábios, daquele tipo que te suga até o que te falta. Brigando de espadas com suas línguas úmidas de licor de menta. Fez arder. E já não se sabia se era por conta da menta ou se era o fogo que saia de seus corpos. Ou se foi a própria alquimia dessa mistura quente que os fez entrar em combustão. Toda a pista pegou fogo e só se viu chamas no lugar.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

PASSAGEIRA



O mundo anda tão preto e branco. Tudo pulsa. Tudo treme. Tudo se move. Mas é tudo tão automático. O mundo tem andado no piloto automático. Quem é esse piloto gente? Alguém já viu seu rosto? Já lhe deram bom dia? Ele é alguém em que se possa confiar o mundo? É a vida passa... E ultimamente anda passando cada vez mais depressa. Meu passado me vem em flashs e não consigo conceber o quanto a vida é fulgás. Quanto já fiz de mim sem que soubesse o que de mim fazia. Tem dias que sou puro impulso e emoção. Outros a razão me domina de tal forma que me impossibilita de me mover. Enquanto isso a vida passa. O mundo gira. E o lugar que deixo quando volto já não é o mesmo. Tenho medo do retorno e do quanto pode ser frustrante ver certas mudanças. É difícil partir. Mas ainda mais difícil é voltar. Nada volta como antes. A vida anda passando pra mim. As pessoas andam passando por mim. E eu sou aquela que nunca volta. Eu sempre fico.

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Afetos Fragmentados

"Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final. Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. [...] Eu sempre fui e imediatamente já não era mais. [...] Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro."

(Um Sopro de Vida - Clarice Lispector)

domingo, 23 de novembro de 2008

PEDIDO AO TEMPO


Peço tempo ao tempo

Para fazer o que desejo
Mas nem em meus sonhos eles cabem
Meus desejos transbordam os ponteiros.

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008


Parece que tenho perdido a dose, o freio, o medo, o silêncio. Num processo de sentir tudo no qual o que fica é só o vazio do nada sentir. Quando muito se tem nada quer. Eu não quero nada, pois estou farta de tudo... Tudo o que me cerca. Tudo me parece velho e desinteressante. Ando precisando do novo, do desconhecido, do frio na barriga, do contato em carne viva. Consegui me desvencilhar das amarras que me prendiam. Mas mesmo solta não quero a liberdade. Quero me prender em alguém. Quero que alguém se prenda a mim. Mas é tudo tão velho e desinteressante.


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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

PARTE DO TODO


Já não sei em qual abismo me deixei
É só corpo que levo
Só físico
Só matéria
É uma parte do todo


O mundo me reconhece como tal
Como todo
Mas eu não
Não me vejo
É apenas parte de mim que me move
A outra está morta
É estorvo
É encosto
É resto

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

NO ENCONTRO DA ESCRITA



Por que as vezes nos é tão difícil escrever? Me parece que as vezes os sentimentos não cabem em palavras e tentar definí-los é reduzi-los numa materialidade que não os cabe. É condensar a sensação num único valor, num só termo como se ele não pudesse ser vários. E no momento que o escrevemos apreendemos nele essa marca e ele deixa de poder ser qualquer outra coisa que pudesse vir a ser. As palavras tem peso. A escrita marca. O indizível quando dito parece que impossibilita o poder ser de outra maneira que não aquela. Não se pode voltar atrás. E quando se escreve se expõe. É impresso seu próprio eu ali nas palavras. Escrever é arriscar-se. Escrever é encontrar consigo mesmo. Registrar o que pensa e assinar em baixo. Eu quero escrever hoje uma coisa e amanhã escrever totalmente o contrário sem medo da culpa. Quero que tirem de mim o fantasma da escrita. chega de susurros eu quero gritar. Berrar para que todos ouçam meu grito. Vou escrever pura e simplesmente pro meu prazer. Escrever porque gosto. Escrever para o nada. Como agora que jogando palavras entrelaçadas no papel sem destino. Se por algum acaso elas chegarem até você, será por sua conta lê-las ou não. E nem tenho pretensão de agradar-te, fique pra você algo de bom ou ruim. Aquela que escreve já escancarou e chutou seus fantasmas. Só o ato de extravasar já me basta. Não quero reconhecimentos, nem pompas, nem festas. Eu quero despojar de mim mesma. É um exercício de tirar as máscaras e dar forma ao que não tem corpo. Dar nome ao que não tem nome. É na angústia que faço versos em busca de mim mesma. Escrevo pra me encontrar.

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domingo, 16 de novembro de 2008

É que não vejo razão em certas coisas. E não vejo porque manifestar alguma reação. Espero paciente pela minha hora. Mas que seja feita a minha vontade.

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sábado, 11 de outubro de 2008

OUTRO VOCÊ

Já perdi as contas de quantas bocas beijei para encontrar a sua. Me entreguei a vários amores sempre comparando ao nosso. Todo fim não me torturou tanto, pois nenhum foi igual ao que você deu a nossa história. Todos amores que tive terminaram no relâmpago da descoberta de que nenhum seria igual a você. Muitos beijos. Muitos abraços. Muitas carícias. Tudo isso em busca do seu toque, do seu beijo, do seu abraço. Uma busca em vão. Ninguém tinha o seu cheiro, nem chegava perto do seu tom de voz ao meu ouvido. Até descobrir que eu nunca gostei de você de verdade. Que nunca procurei você nos outros rapazes. Eu estava sempre em busca da idéia de alguém que não me quis por inteira. Estava em busca da forma desse alguém e era preciso que dessa vez ele me quisesse pra que esse “carma” fosse superado. E houveram muitos que foram como você. Houveram muitos melhores que você. Porém todos me quiseram. E no instante da confirmação do querer eu perdia a imagem de você nele. Tudo era desinteressante e eu ia em busca de um outro você.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

domingo, 28 de setembro de 2008

Constantemente me pego a pensar o que pensam os outros sobre mim.
Quem nunca quis saber a imagem que passa...
Algo mais do que apenas olhar no espelho toda manhã.
A gente precisa sempre de um algo mais
Seja pra acreditar mais em nós
Seja pra inflar ainda mais o nosso ego
Seja pra nos decepcionarmos diante da imagem vista pelos outros.
Às vezes não sei se passo a imagem certa
Às vezes não sei se tenho sido o que realmente quero ser
É um devir constante que ás vezes me soa falso (que me perdoe os “devirnianos”)
Sei lá sei lá
Eu queria ser mais, sem medo do exagero.
E às vezes até queria ser menos, sem medo da falta.
Queria ser eu sem condições
Sem objeções
Sem opiniões
Queria apenas ser eu sem comparações e parâmetros
O que mata é quando te vêem como reflexo de alguém
O que mata é quando te vêem imagem de alguém
Isso gera expectativas
Expectativas geram frustrações
Frustrar-se com algo autêntico
É impedi-lo de se expandir
É matar idéias
É matar a vivacidade da vida e das multiplicidades que ela gera
Eu quero ser eu sem condições
Quero expandir o ser que há em mim
Quero descobrir as possibilidades de ser
Então olhe pra mim e não veja nada
Olhe pra mim e anule idéias e conceitos
Olhe pra mim e me veja como um campo seco que floresceu e frutificou
E tente colher meus frutos como se fosse algo inexistente em qualquer outro campo da face da terra.
Saboreie-me.
Desfrute-me.
E se depois disso mesmo assim não aprovar
Apenas me permita alimentar outras pessoas.

-=Þëqµëñä Þö놡zä=-