
Preciso dos meus versos de volta
Aqueles de carne e osso
Chegava a me sangrar cada palavra posta no papel
Hoje, mal ouço ruído de vento na janela.
-=Þëqµëñä Þö놡zä=-

Engraçado como o que me fala soa como palavras vazias
Gosto de versos simples e sem rodeios-=Þëqµëñä Þö놡zä=-


Não tenho obrigações com o tempo. Escrevo o que me acontece e o que me faltou acontecer. Escrevo como gostaria que tivesse sido. Coloco vírgulas e pontos onde bem entendo. Volto ao passado e no instante seguinte já estou em meu futuro. Não tenho compromisso com a verdade. Não faço jornalismo. Não relato fatos. Minha única obrigação diz respeito aos meus sentimentos.-=Þëqµëñä Þö놡zä=-








Parada. Estou parada. E o que mais me incomoda nesse estado é que eu poderia continuar ou descer e fazer outro caminho. Mas não. Eu estou parada e simplismente só. Parada não no sentido de reflexão. Parada no sentido de nada a se fazer. Sem movimento. Sem ação. Nem masturbação mental tenho praticado ultimamente. Besteira total essa coisa. Eu preciso de incomodação, de inquietação, de amolação, de encheção de saco. Preciso de tudo aquilo que me tire dos eixos. Porque anda tudo parado e não é pra balanço é pra acomodação mesmo. Tá tudo tão bem acomodado que num levanta uma palha pra se mover. E desde quando o mundo é perfeito que assistir novela num comove mais? Pois é até isso veio a calhar. Anda tudo num estado de dormência, mas nem o furmigamento eu tenho sentido. Nada. Nada. Nada. Nem barulho de grilo. Nem canto de cigarra. Está tudo morto.



Vejo você escorrer entre meus dedos e sinto que estou te perdendo. Me vejo fraca e sem forças pra lutar. Na verdade nem sei se quero essa tal luta. Comprar briga por algo que já nem sei se quero mais pra mim. Talvez por isso deixei nosso amor dissolver. De sólido ficou líquido. Agora está a ponto de evaporar. Tenho medo do nada. Tenho medo de depois do tudo que vivemos reste só o vazio do não ter. Do não se querer. Do não lembrar porque um dia estivemos juntos. Nos reste apenas as não lembranças de fatos que vivemos. Do que um dia prometemos ser pra sempre. Do que hoje talvez não nos reste nem passado na lembrança.

Tenho me escorrido por entre rachaduras do chão. Me deixado penetrar no centro de tudo. Ido bem fundo além do que qualquer um foi. Só pra sentir o calor... o fervor... do perigo. Só porque ninguém foi e ninguém viu. Só porque o novo me excita, me instiga, me impulsiona. Me faz viver.
Eu já perdi as contas de quantas bocas me perdi procurando a sua. Procurando teu gosto. Teu beijo. Você disse que tudo ficaria bem que cada um seguiria seu caminho. Mas eu nunca fiquei bem e será que você sabe disso? Você seguiu em frente me deixando pra trás e eu ainda estou aqui no mesmo local que você me deixou. Não que esteja a sua espera, mas é que não consegui me mover. Desde aquele dia minhas pernas ficaram paralisadas, enquanto que você parece que ganhou mais força para continuar. Eu queria saber o que sente quando ouve falar meu nome. Queria saber o que pensa ao meu respeito. Talvez se vanglorie de fatos e acontecimentos e sinta-se mais viril ao saber que ainda estou só. Arre! O que há com meu relógio do tempo? Há anos está quebrado e nada do que eu faça parece concertá-lo. Desde que parou marca a mesma hora e é como se meus dias fossem todos iguais. Ando a repetir gestos e sentimentos e não aprendo mais nada. Mundo insano que criei pra mim. Repetem-se os dias, as horas, os meses, os anos. E tudo é sempre tão igual. 
Prometeu-me o mundo e nem o pó da estrada pôde me dar.
Corpos frios e gelados é o que temos sido
Procuro palavras, mas elas não vêm. Não vem. Não vem. Pesco cada letra tentando encaixa-las num enredo certo, correto e preciso. Mas tudo tem parecido pequeno e não bastante enquadrável naquilo que quero expressar. Faltam palavras e argumentações. Tudo tem sido pouco e quase nada. Não quero ter que regular a voltagem das coisas ao que preciso. Quero que ou esteja pronto ou que eu possa reinventar uma nova voltagem para mim. O que não existe eu invente. Deixa eu ferver a 6000º. Quero expelir tudo do núcleo do meu ser. E virar se não lava de vulcão. Não. Não. Pra que estética? Pra que condensar sentimentos em palavras classificáveis esteriotipadas? Não me venha falar de modelos, regras e leis. Moral? Ah me poupe sobre esses subterfúgios de um mundinho reprimido e escroto que não consegue ser o que se quer e julga o outro. O que é a moral se não o espelho repressor de tudo aquilo que você queria ser e não tem coragem. -=Þëqµëñä Þö놡zä=-
Não, eu não quero o certo, o correto, o previsto. Não, eu não quero a precisão do destino que protege, que abriga, que nos impede de experimentar. Não, eu não quero a mesma precisão do destino que condena, que pune, que fere. Se for pra me ferir e me machucar que seja por mim mesma. Quero sangrar até a ultima gota. Fazer exposição da minha carne viva. Quero chocar e estremecer. Mas que não seja dito que foi o meu destino e sim que foram minhas escolhas. Eu quero sentir vida em mim, sentir tudo estremecer e ferver. Quero ardência em cada parte do meu corpo e se for preciso me queimar, então que assim seja. Chega de sentar na janela do trem e ver a vida passar como se eu não tivesse nenhum tipo de controle sobre ela.
Pinga cada gota de sangue deixando rastros, passos e compassos. Ela que sangrava já nem sentia. Há dias a ferida aberta exposta, esperando talvez que alguém notasse. Ou não esperando nada apenas já não se sentia viva o bastante para cuidar dessa ferida. Devido ao seu estado de não-vida, já não podia sentir as fagulhas que dilasceravam seu corpo. Apenas estava sendo sem saber o que se era. Subindo os degraus da catedral parou diante do ultimo e entrou de joelhos. Dizia palavras e frases desconexas. Rogando por ajuda as preces eram sem nexo aos ouvintes de fora dela. Já não se lembrava das orações que havia aprendido quando criança então não ousou parafraseá-las, preferiu simplismente falar. Deixou que seu coração trouxesse as palavras do fundo de sua alma. Encharcada de lágrimas, sangue e desespero ficou ali a noite toda diante do pai, buscando lavar o resto sórdido de alma que ainda existia em si. Não buscava ajuda para um futuro, não buscava força para viver. Clamava apenas o perdão. No fim da madrugada, já amanhecendo ouvia-se os primeiros carros e ônibus nas ruas da metrópole. Levantou-se serena, a ferida já havia entrado no processo inflamatório, havia muito pus, estava bem inchada e ainda escorria sangue. Saiu da catedral e olhou a rua e os carros passando como flechas em sincronia. Poucas pessoas na rua, porém ninguém a olhava, era invisível a todos. Mesmo no seu estado de podridão, não tomava banho a dias o que fazia com que exalasse um odor desagradável. Ainda a olhar o movimento dos carros, foi andando calmamente em direção a rua e deixou que um deles a levasse em direção ao poste de um quarteirão depois da catedral. Era sua ultima tentativa de sentir a vida.
-=Þëqµëñä Þö놡zä=-