
Tudo tão manso.
E vem você como uma corrente forte de ar frio abrindo minha janela.
Me invade.
Vento bom. Muito bom
Eu sempre gostei dos fins de outono.
Não sei bem ao certo as coisas que me levam até você...
Sem muitas delongas. Sem grandes pedidos. Sem muitos pesares. Digo que abandono o jogo, porque não trato o amor como sorte ou azar. Não vim aqui pra ganhar ou perder. Ter ou não ter. Queria compartilhar com você a minha vida. Mas está sempre de partida. E em nossas partidas sou sempre eu que fico partida. Fico com aquela sensação de jogadora em nocaute. E quando você volta pra mais um de nossos jogos, finjo que dessa vez eu vou ganhar. A única coisa que ganho são migalhas de tempo com você. Não quero ser nem jogadora nem mendiga de amor. Restos? O amor é mais que sobras. Você janta com ela e eu fico com o que sobrou. Isso quando sobra algo dos jantares. Quantas vezes tivemos que desmarcar nossos encontros porque nem sobras você teria pra mim?! Me retiro de campo nem como ganhadora, nem como perdedora. Mas como eu. Com a parte de mim que queria compartilhar com você. A tomo de volta ferida e lascada, mas a se recompor. Tua presença-ausência tem sido mais nociva do que tua falta por completo. Porque não é tua falta que machuca, mas a esperança ilusória de que você é uma parte minha também. Somos cartas de baralho perdidas em outros jogos. Jogos incompletos. O fim nunca é o fim porque a gente termina antes de acabar o segundo tempo. Faltam regras e condições em nossos jogos. E ao invés de discutirmos sobre elas deixamos como está e nos viramos pra seguir a vida até a próxima partida. Então agora imponho algumas regras pro jogo que você quer jogar. Primeiro não tratar nossa relação como um jogo. Segundo nesse (não)jogo eu só jogo de dois, eu-você e mais ninguém. Terceiro nossa partida não tem hora pra acabar, porque aqui não importa ganhar ou perder, mas estarmos juntos de verdade. Coisa que nunca estivemos. Quero um amor sem hora marcada na agenda.
Foi em um janeiro que eles voltaram a se encontrar. Ali sentados naquele café de uma esquina francesa qualquer, puderam praticar suas línguas conterrâneas. Puderam compartilhar causos e acasos de suas vidas. Perguntaram de si como se investigassem suas próprias vidas. Mas nada ali foi intimidador. Parecia que se conheciam ha anos. Conversavam como dois amigos de longa data com uma intimidade e afinidade conquistadas ali, no agora, na relação. Carolina lembrou da passagem que tiveram. A primeira vez que se viram. Pedro disse que se lembra bem. Porque ficou com aquele rosto em sua cabeça durante todo esse tempo que se passou. Também teve vontade de pará-la, mas deixou ir, pois aquele era seu ultimo dia no Brasil e sua vida estava complicada demais pra arranjar mais dores pra sua partida. Carolina assim entendeu porque nunca mais Pedro havia passado naquele lugar durante todos os dias que ela esperou por ele. É claro que ela ainda não falou com ele sobre sua espera. Parecia ainda não ser o momento, a hora certa. Carolina guardava ainda segredos pra si, principalmente aqueles que pudessem deixar aquele encontro com sabor de pesar. Decidiu apenas aproveitar, sentir aquilo como se fosse um ultimo suspiro. Depois do café, andaram pelas ruas conversando e rindo. Olhar para a paisagem era casual, quase um charme da relação. Esqueceram de seus compromissos e o tempo que tinham fora dali, daquele encontro. Dividiram-se trocando partes de si. Já de madrugada, depois de passarem o dia todo juntos apenas conversando, Pedro levou Carolina até seu hotel. Carolina enquanto caminhavam ficava se perguntando se pedia pra ele subir ou não. Quando chegaram, não fez o convite, ele apenas deu o endereço de sua casa e seu telefone. Ela pegou o bilhete dobrado e guardou no bolso, sem trocar seu telefone com ele. Ele ficou apenas com aquele sorriso encantador no rosto esperando retribuição. Não houve e ele não pediu também. Ele sabia onde procurá-la se quizesse. Num abraço apertado se despediram com um beijo leve e demorado no canto dos lábios. Ela subiu até seu quarto no 7º andar e olhando o relógio viu já estar atrasada. Eram 02:37. Seu vôo para o Brasil sairia ás 03:15. Pegou suas malas e chamou um taxi para o aeroporto.
Senti. Menti quando te disse que os sentimentos se esvaem e evaporam feito bolhas de sabão. Porque em mim as coisas fervem. Borbulho sempre num risco de derramar. Mas fica sempre por um triz. Ficamos sempre nesse triz. Nos entre caminhos que nos rodeiam. Quando nos vemos, nossos corpos parecem tremer como se chamassem um pelo corpo do outro. Cada vez mais perto mais sentimos cada célula do nosso corpo se bagunçar, como se nossos corpos buscassem outras formas pra se acoplar. Meu corpo quer fagocitar o seu. Quando nos somos, já somos outros em nós. Tenho procurado ultimamente palavras discretas e em curtas frases te dizer o que meu corpo grita. É como se não precisasse expor em palavras algo que exala de mim em visão, tato, olfato e paladar. Você me alcançar em audição vira mero pretexto.
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Ao menos quando algumas coisas já estão em cacos a gente junta.
Agora quando ainda tem que se tomar a decisão de se atirar do alto pra se estraçalhar...
Paro.
Penso.
Não consigo.
Ainda
(...)
Joana. 32 anos. Nem magra nem gorda. Cabelos longos e pintados de vermelhos, mas com a tinta já para retocar. Não era uma mulher de manias. Tinha uma apenas. Juntar garrafas. Catava todas que via pela rua. Das que tiveram a vida mais alegre na mão de um adolescente em meio a um show animado. Até a garrafa de um bêbado chorando lamúrias em uma esquina qualquer. Todas eram lembradas e guardadas por ela. Todas as garrafas que pudesse. Sua casa já não se via mais nada a não ser garrafas. Ah é claro e todas eram de vidro. Elas eram muito bem cuidadas. Assim que chegava em casa Joana lavava e tirava o rótulo uma a uma. Todos os dias olhava para elas com encantamento. Sentia-se tão só e abandonada quanto elas. Cuidava delas como gostaria de ser cuidada por alguém. De uma sutileza e amor muito amor. Tanto amor que começou a perceber que de tanto amá-las acabou por aprisioná-las. Nesse amor acabou por cultivar um de seus maiores medos: perdê-las. Com um tempo passou a perceber que todo o cuidado e carinho que as deu já havia sido o suficiente e agora elas precisavam voltar para a rua. Precisavam correr riscos e porque não? Quebrar. Sim elas precisavam correr o risco de virarem cacos. E junto com suas garrafas espatifou-se no chão. Deixou-se derramar junto com as garrafas. Engarrafada de pensamentos, medos, anseios e dores foi (des)engarrafando em meio a dança e poesia fazendo um convite a todos para se engarrafarem. Dividindo garrafas em meio a desabafos e permitindo que algumas pudessem se quebrar. Não sem dor. Não sem choro. Mas se permitindo deixar ir.



Então eu digo sim e você diz não. Então eu digo não e você diz sim. E a gente vai brincando de desdizer o que se disse. Vai inventando de inventar o que não existe. O que já é deixa de ser sendo... passando... vivendo... Vai longe. Bem longe. O que fica é só o instante que já foi. Nada é. Sempre está. Estandando estou estendo estado. Sempre me perco nos tempos dos verbos que conjugo. 


Se achas meus versos tristes é porque não entende a poesia de minhas palavras
Vi espaços vazios e papéis em branco amassados ao lado da cabeceira. Olhei ao redor e o silêncio imperava não só em meu espírito, mas no que me cerca e me prende. Os ruídos da goteira do ar condicionado que a mais de um mês está para ser concertado é o único tipo de barulho que ouço quando vou me deitar. Pensamento? Já nem sei o que são há tempos, pois me deito tão embebedada de cansaço que se quer me dou o direito de alguns minutos de devaneio antes do repouso noturno. E fujo mais uma vez. Deixo o silêncio. Trago a dúvida alada. Vários apêndices em mim que insistem em ficar fora. De fora. Para fora. Dentro? Só o vazio do ar que me falta e do qual sempre me contento. Não busco mais. Não busco nada. E me escondo mais uma vez.


Foto: Catarina Krug
Não sei. A vida é curta e tão pequena. Ocupamos apenas um limiar do que de fato ela representa e é. Mas o que ela é e representa eu não sei. Temos nossas maneiras particulares de nos dizermos e nos colocarmos para a vida. Seja quando a enfrentamos ou quando a negamos. Cada um vivendo um mundo próprio e solitário achando que só ele próprio é capaz de entender. Sem permitir compartilhar numa comunhão de bens o que lhe pertence para que juntos sendo proprietários do mundo deles possam tornar o fardo de viver mais leve e mais natural. Porque viver é natural, nós é que somos seres artificiais demais para a vida.

"Meu mestre amado, 

Aprendi nesses dias a estar só comigo mesma. Não é rejeição do que vem de fora, mas é acolhimento de mim mesma. De respeitar meus pensamentos. De saber ficar horas e horas se ouvindo. A princípio fui forçada a isso, mas quando vi estava pegando o gosto e o jeito. Não me entenda mal, não é que eu não goste ou não consiga estar só, mas das vezes que o fiz foi por escolha e opção. Dessa vez o meio e pessoas me levaram pra uma espécie de solidão acompanhada. E meu falar saia vazio, virando murmúrio no ouvido de outrem. Até que me calei pra falar a mim mesma e minha solidão de só acompanhada ficou preenchida. Consegui me desprender da solidão vazia e triste. Daquele só, cheio de pesar. Pude parar pra pensar em tanta coisa e confesso que não fiz a descoberta da minha vida, nem agora em diante serei uma pessoa melhor e transformada. Não se trata disso. Se trata de pequenas coisas, pequenas vírgulas, pequenos vãos, coisas pequenas que eu não via e só de ver já é melhor, já muda algo, já vai alguns graus pra direita ou esquerda quem sabe. Só virei um pouco o leme do meu barco da vida. Os ventos estão mais suaves e continuo a seguir. Aprendendo a caminhar um pouco mais só, um pouco mais calma, um pouco mais leve. Deixei alguns pesos pra trás.
Horas e horas conversando sobre suas dores percebemos que são minhas dores também. Todas nóias e preocupações que tens compartilho contigo. E mesmo sendo autoras de histórias diferentes os medos e angústias que nos movem e paralisam são da mesma ordem. Quase chegamos a utilizar as mesmas palavras para expressar o que sentimos. Falamos inexplicavelmente a mesma língua.
Impressionante que mesmo fungindo de parar pra pensar eu penso. Um bucado de coisas me seguem. Tenho sentido falta da fala. Sentido falta dos expurgos, até aqueles que dei pra parede daquela sala pouco iluminada deitada confortavelmente num divã. Falta demais. O que sobra também falta. O que me parece e sempre pareceu é que tudo diz de algo e que eu de alguma forma estou diretamente relacionado com o que se diz. Eu vejo minha implicação em tudo. Ás vezes até demais, ora também de menos. Mas fala de um peso sobrecarregado. Justificativas plausíveis dentro de lógicas aceitáveis a mim. Sempre a mim. De uma obsessão incontrolável por ver minhas digitais por onde vou. Todo vestígio e resquício me denunciando. Sim, culpada! Com cara de vítima me denuncio culpada de fatos que muitas vezes fui meramente figurante. Aceito toda e qualquer condenação de cabeça baixa. Mentira! Eu disfarço finjo que não é comigo achando que todos estão falando de mim e fingindo não saber. Assuntos que por muitas vezes não me tem como pauta. Saio assim tentando enganar o próprio engano meu.