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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

CONVERSA DE EX


Sentados na mesa do restaurante um ao lado do outro. Olhando a vista da cidade. Já não podiam mais sentar de frente. Encarar um ao outro. Olhar nos olhos. Era exercício honesto demais para antigos amantes que se reencontram. Avistavam lá fora buscando as palavras que pudessem usar ao longo da noite. Noite fria, típica de fins amargos e alguns doces começos.


- Quando?

- Quando o que?

- Quando você deixou de me amar?

- Eu não sei. Esse é o tipo de pergunta que é difícil responder. Não dá pra saber ao certo. Só chega um dia que a gente simplesmente sabe, que tudo se perdeu. Que passou. Foi.

- Mas, então quando foi esse momento? O que te fez perceber?

- Sei lá. Acho que foi uns meses antes do nosso fim, naquele jantar com seus amigos lá em casa. Você falando sobre todo o seu sucesso durante o colégio. Sobre a menina mulher linda que sempre foi e que tinha todos os homens babando a seus pés. E de como eu era um desses tantos que te olhava e tinha esse olhar meigo de que te via para além de um pedaço de carne. Que esse olhar te conquistou. História essa que você já tinha contado milhares de vezes. E sempre contávamos juntos, rindo. E eu me gabava por ter te fisgado, e enumerava todas as suas qualidades. Nesse dia, não consegui me gabar. Não consegui descrever suas qualidades. Não consegui sorrir. Só consegui pensar em todas ás vezes que transávamos de noite e era puro sexo. Só sexo. Você tinha virado um pedaço de carne pra mim. Sem perceber estava agarrado feito cachorro ao ultimo osso da cidade. Foi então que eu percebi que não mais te amava. Não era ruim estar com você. Mas não era mais a melhor sensação da minha vida. E por comodismo ou por nossa incrível química na cama eu tinha deixado estar. Mas você merece mais. Você merece alguém que te olhe com aquele olhar meigo, com brilho nos olhos. Que faça amor com você.

- Você sabe que eu fingia, né?!

- Como assim? Fingia o que? Me amar?

- Orgasmo. Quase todas as noites em nossas inúmeras transas. O sexo com você nunca foi incrível. Química? Nunca consegui ver química entre nós na cama, mas mesmo assim relevei isso porque te amava. Foi por causa do sexo que eu percebi que não te amava. Quando ir pra cama com você era motivo de náuseas e dores de cabeça, foi que percebi que eu não te amava mais.

- Então foi mentira? Você me enganou o tempo todo?

- Sem vítimas. Não foi mentira. Foi a nossa verdade, inventada e criada por nós. Nos enganamos pra nos dar prazer. Por um tempo eu porque precisava de alguém que me amasse e por outro tempo você porque precisava de alguém pra dar umazinha. Completamente egoístas em prol de nossa própria felicidade.


O garçom chega à mesa nesse instante. Serve a comida ao dois. Eles permanecem o restante do jantar em silêncio degustando o prato. Banhados a vinho olham fixamente para o vidro a sua frente que revela a cidade iluminada. De vez em quando olham de lado com um sorriso cabulado. Sem muito mais o que dizer se despedem e cada um segue sua direção.

4 comentários:

Hélio Netho; disse...

muito bom seu texto. Bom de verdade. Sentimento a flor da pela e honestidade a ultimo grau.

Natália disse...

Ótimo texto!
Falar e ouvir esses tipos de verdade é dolorido, mas necessário.

Força nesse último semestre!!!

Beijo

Guilherme Navarro disse...

Superou-se.

Carla Jaia disse...

uma pontada de angústia. muito bom o texto, Gigi!