DAS MINHAS FUGAS


Me pego fugindo de tudo. Principalmente das responsabilidades que me cabem. Engraçado é que quando tenho que retornar me vem como uma bomba. Estoura e não sei pra que lado olhar. É sempre assim antes e depois da fuga. A fuga também é estouro. É tudo fulgás. No fim das contas só restam pó e cinzas. E flashs, muitos flashs. Nada por inteiro. E nenhum lugar pra chamar de meu.


QUANDO FIQUEI SÓ

Aprendi nesses dias a estar só comigo mesma. Não é rejeição do que vem de fora, mas é acolhimento de mim mesma. De respeitar meus pensamentos. De saber ficar horas e horas se ouvindo. A princípio fui forçada a isso, mas quando vi estava pegando o gosto e o jeito. Não me entenda mal, não é que eu não goste ou não consiga estar só, mas das vezes que o fiz foi por escolha e opção. Dessa vez o meio e pessoas me levaram pra uma espécie de solidão acompanhada. E meu falar saia vazio, virando murmúrio no ouvido de outrem. Até que me calei pra falar a mim mesma e minha solidão de só acompanhada ficou preenchida. Consegui me desprender da solidão vazia e triste. Daquele só, cheio de pesar. Pude parar pra pensar em tanta coisa e confesso que não fiz a descoberta da minha vida, nem agora em diante serei uma pessoa melhor e transformada. Não se trata disso. Se trata de pequenas coisas, pequenas vírgulas, pequenos vãos, coisas pequenas que eu não via e só de ver já é melhor, já muda algo, já vai alguns graus pra direita ou esquerda quem sabe. Só virei um pouco o leme do meu barco da vida. Os ventos estão mais suaves e continuo a seguir. Aprendendo a caminhar um pouco mais só, um pouco mais calma, um pouco mais leve. Deixei alguns pesos pra trás.

DA AMIZADE

Horas e horas conversando sobre suas dores percebemos que são minhas dores também. Todas nóias e preocupações que tens compartilho contigo. E mesmo sendo autoras de histórias diferentes os medos e angústias que nos movem e paralisam são da mesma ordem. Quase chegamos a utilizar as mesmas palavras para expressar o que sentimos. Falamos inexplicavelmente a mesma língua.
Uma conexão que está para além de qualquer tipo de explicação e lógica. A verdade é que você me faz muito bem. Conversar contigo e nos percebermos tão próximas me faz sentir que estou menos sozinha nesse mundo maluco. Uma cumplicidade sem cobranças nem juros ou correção monetária. Tudo na medida certa, sem saber a certeza dessas medidas. Sempre estão a mudar a variar. Mas a gente não pergunta o preço simplesmente paga e não com gosto de dívida, mas aquilo que é. Com um prazer de um presente recebido. Nossas conversas tem o frescor das tardes de outubro. Não há tempo ruim e os ventos fortes de tempestade que chegam até nós não derrubam nossas estruturas. Estamos sempre lá firmes. Sei que posso contar contigo amiga. Sabes também que me tens pro que der e vier. E a sabedoria de nossas certezas vem do ar que passamos uma para a outra. Sem medos de perdas e de que nos tire o chão. Na simplicidade e cumplicidade que agradeço por fazer parte do que sou a cada dia.


(Para uma grande amiga que mesmo tão longe se faz tão perto)

SOBRE MEU EGOCENTRISMO

Impressionante que mesmo fungindo de parar pra pensar eu penso. Um bucado de coisas me seguem. Tenho sentido falta da fala. Sentido falta dos expurgos, até aqueles que dei pra parede daquela sala pouco iluminada deitada confortavelmente num divã. Falta demais. O que sobra também falta. O que me parece e sempre pareceu é que tudo diz de algo e que eu de alguma forma estou diretamente relacionado com o que se diz. Eu vejo minha implicação em tudo. Ás vezes até demais, ora também de menos. Mas fala de um peso sobrecarregado. Justificativas plausíveis dentro de lógicas aceitáveis a mim. Sempre a mim. De uma obsessão incontrolável por ver minhas digitais por onde vou. Todo vestígio e resquício me denunciando. Sim, culpada! Com cara de vítima me denuncio culpada de fatos que muitas vezes fui meramente figurante. Aceito toda e qualquer condenação de cabeça baixa. Mentira! Eu disfarço finjo que não é comigo achando que todos estão falando de mim e fingindo não saber. Assuntos que por muitas vezes não me tem como pauta. Saio assim tentando enganar o próprio engano meu.

Pintura: Gustav Klimt

DE BANDEJA


Bebe do meu sangue
Prova da minha carne
De sobremesa fica com meu gozo até a ultima gota.


SOBRE A MINHA INDIFERANÇA





Eu não sei dos meus vazios

Desses frios na barriga
Desses nós na minha garganta
Eu não sei dos meus incômodos e calafrios
E a minha indiferença a tudo isso é o que mais me fere

SOBRE MEU RITMO


Escolhi a velocidade do vento, por hora
Não quero ter tempo pra parar e observar como as coisas passam
Eu não quero pensar
Não quero
Ver cada verso no compasso da repetição
Rever cenas
Rever a minha vida todo dia repetindo o mesmo roteiro?
Alienar-se do óbvio!
Eu não agüento
Por hoje não
Deixa tudo rodar
Deixa seguir
Deixa ir
Eu acompanho no mesmo ritmo


DO MEU ESTADO


Sem passo
Sem jeito
Sem forma

Nesse compasso desajeitado me conformo.


SOBRE "EU TE AMO"


Num mundo onde o “eu te amo” foi banalizado. Chegamos a tomar café da manhã espirrando um “eu te amo”. Meio que por acaso. Não era bem a intenção. Saiu. Não foi isso que eu quis dizer. Como assim não teve a intenção?
Eu perdida em toda a banalização que o “eu te amo” se tornou, não consigo dizê-lo. As pessoas que amo parecem ter que sentir o meu amor assim sem eu precisar dizer. Alguns deles são inclusive meus amores mais seguros, aqueles que não preciso reafirmar todo dia que amo a pessoa. Pois apenas no olhar a gente sabe. A gente sabe.
Mas sempre há aquelas pessoas que a gente sente que elas não sabem o quanto são importantes pra nós e a gente simplesmente não consegue fazê-las perceber isso. Elas são parte de nós, tem nosso apreço e sentimento mais profundo e todo nosso desconcerto faz com que ela não entenda as vestes do nosso amor. Nem sempre podemos nos fazer compreender por inteiro. Pois é, mas é desse tipo de “eu te amo” calado que me incomoda. Dessas entrelinhas indecifráveis escritas em braile. É preciso contato. Mais contato pra sentir. Por mais importante que seja pra mim ainda fica um abismo. A ponte do “eu te amo” ás vezes é estreita. Nem sempre estamos preparados pra atravessar. Com cada um tem um tempo. Um momento. E mesmo se não digo não quer dizer que eu não sinto. Ás vezes tenho medo do silêncio ou de respostas automáticas e vazias que minha fala pode causar no outro lado.


 
E "eu te amo" era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça.
(Clarice Lispector)

SAUDADE

Toda noite minha alma vai até você.




A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.
(Rubem Alves)