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domingo, 18 de julho de 2010

DOS NOSSOS MEDOS E FERIDAS


Eu pensei que ainda fosse de manhã. Mas já era noite e você havia partido deixando apenas lembranças e marcas cravadas em mim. Mas ainda assim parecia dia. O mundo irradiava uma luz de novos tempos. Tempos bons. Mas andava tudo tão estranho. As coisas pareciam fora do lugar, sei lá. Não dava nem para saber ao certo o que dizer. Estávamos ali fazendo nossos respectivos papéis que nos pareciam tão gastos e incoerentes. E não conseguíamos respeitar o script, muito menos transgredi-lo a maneira que nós desejávamos. Fomos embora e ficamos separados por uma parede fina que durante a noite ouvíamos a respiração um do outro. Respiração essa que fazia pulsar as batidas de nossos corações em sintonia. Então em que corpo me tomo? Ganhei outras estruturas e novas formas dentro de mim. Sou outra e esse estranhamento me detém de tanto. Eu já não sei. Você também não, talvez! Eu vejo sua dúvida, mas ela ainda é tamponada com a casca da ferida de uma dor fresca que ainda exala pus. Eu tenho medo de que seja contagioso. Tenho medo que tuas feridas revelem as minhas. Tenho medo de novas feridas. Tenho medo de tanta coisa e isso é só mais uma de todas elas. Ontem? Hoje? Não foi nada e mesmo assim foi tudo. Foi quase experiência de como seria se assim fosse. Se colocássemos nossa cara a tapa e fazer valer. Mas tuas feridas ainda estão doloridas demais e eu não quero ser somente aquela que trata das feridas. Eu quero mais. E eu não consigo tratar das suas feridas porque toda vez que você fala dela é uma agressão a mim. E toda vez que ouço e percebo que você ainda gosta dela me faz ter mais medo. Eu prefiro não ouvir. Prefiro não saber. Essa parte egoísta de mim me impede de ser mais tua. E eu não sei como deixá-la de lado. Tenho me esforçado, mas nunca é o bastante. Aquela velha história das medidas que eu não sei. O muito parece pouco e o pouco parece nada. Talvez no fundo eu não queira só te salvar, mas também ser salva. E alguma coisa ainda me faz sentir que você não está pronto pra tudo isso.




"Eu vou ficar calada, um tempo enorme só olhando você sem dizer nada, só olhando e pensando, meu Deus, mas como você me dói de vez em quando."

Caio Fernando Abreu

Um comentário:

Mariana Amorim disse...

Coisas da vida que passam. Do arranhão, da dor ao amor. Tudo passa.